giovedì 1 maggio 2008

Anátema

«O que vem ao mundo para não perturbar nada
não merece nem consideração nem paciência.»
René Char


E eu condeno-te a noites insones!
A uma mente e coração asfixiado por dúvidas, a notas tocadas pelos dedos em sangue na busca de uma perfeição que sabes longe de ser alcançada. Condeno-te à constante lembrança de todas as promessas que quebraste e a uma vida de insatisfação pela própria vida que não comandas. Amaldiçoo-te os sorrisos com o passado que odiavas e profetizo-te o retorno a uma vivência vulgar de ser humano medíocre num cativeiro de mãos envelhecidas pela inércia e pela ausência de coragem.

Que todos os sentires fiquem sempre à distância da tua mão, sem nunca os conseguires alcançares.
Que o mundo te invada, rodeie mas não permaneça, que a tua casa seja a imagem da minha pele cicatrizada da tua passagem por mim enquanto eu renasço livre para caminhar neste mundo, ainda que só de ti. Que o meu nome, eterna lembrança, seja o fosso que se abre biblicamente no teu leito e que dos teus olhos vertam as lágrimas que tenho engolido.
Por último, no único segundo em que acreditarás finalmente descansar prometo-te que os teus olhos não se fecharão perante as minhas mãos abertas sobre a tua face e das linhas que tantas vezes beijaste, onde todos os teus segredos estão guardados, inflamar-se-ão as palavras para mergulharem de novo na tua garganta, para te esventrar de tudo o que de nós guardaste e aí, no teu último expirar inclinar-me-ei sobre ti para da tua boca resgatar o meu nome.
Partirás.
Absolutamente sozinho.


A ouvir Songs Of Darkness, Words Of Light - My Dying Bride

mercoledì 16 aprile 2008

(S)Inamorata


Lembro a noite e lembro a manhã.
Recordo a estrada coberta de cinza que se abria vertiginosamente à minha frente enquanto, sem que eu soubesse, os mares se afastavam para que pudesses caminhar.
Acelera mais um pouco, peço-te.
Põe a música mais alta e cala tudo o que não quero ouvir... Cala a minha voz e o meu coração que agora me bloqueiam o raciocínio e me aborrecem o olhar.
Cala-te tu também e vai até onde o mundo acaba.
"Onde queres ir? Gostava de ver o mar..."
Não quero ver o mar! Leva-me para longe, para onde queiras ir... Mas não para perto do mar.
Leva-me ao fim do mundo, pede-te a voz dentro da minha cabeça.
Fecho os olhos e encolho-me ao teu lado. Sei que estás a olhar para mim, julgas que durmo, que esqueci que atrás de nós se desenrola a serpente, que não lhe ouço o sibilar doloroso cada vez que o sol teima furar o nevoeiro.
Não quero saber! Só quero o silêncio, a música e que obedeças quando te digo que quero que me leves até ao fim do mundo. Não quero saber do veneno que escorre em jeito de poema pelas presas da serpente e finjo ignorar que foram as tuas mãos que me acordaram da serenidade da noite, porque na verdade ignoro.
Não páres nesta estrada em que nada existe, pois todos os caminhos que percorrerei terão início aqui e não quero.
Penso.
Peço-te.
"Posso ler-vos um poema ?" sibila a serpente. Olho para trás e de novo volto-me para ti, sem te ver, e por esta vez o ar enche-se de palavras, de aventuras parisienses, risos e medo. Medo dos sonhos em que os altares se incendeiam, medo da voz que me grita: A noite é eterna! enquanto desenlaço a corda à volta dos pulsos, medo por simplesmente sentir medo das horas que virão.

lunedì 17 marzo 2008

Cansada das MINHAS palavras

Ah! vous voulez savoir pourquoi je vous hais aujourd’hui. Il vous sera sans doute moins facile de le comprendre qu’à moi de vous l’expliquer; car vous êtes, je crois, le plus bel exemple d’imperméabilité féminine qui se puisse rencontrer.
Nous avions passé ensemble une longue journée qui m’avait paru courte. Nous nous étions bien promis que toutes nos pensées nous seraient communes à l’un et à l’autre, et que nos deux âmes désormais n’en feraient plus qu’une;—un rêve qui n’a rien d’original, après tout, si ce n’est que, rêvé par tous les hommes, il n’a été réalisé par aucun.

Le soir, un peu fatiguée, vous voulûtes vous asseoir devant un café neuf qui formait le coin d’un boulevard neuf, encore tout plein de gravois et montrant déjà glorieusement ses splendeurs inachevées. Le café étincelait. Le gaz lui-même y déployait toute l’ardeur d’un début, et éclairait de toutes ses forces les murs aveuglants de blancheur, les nappes éblouissantes des miroirs, les ors des baguettes et des corniches, les pages aux joues rebondies traînés par les chiens en laisse, les dames riant au faucon perché sur leur poing, les nymphes et les déesses portant sur leur tête des fruits, des pâtés et du gibier, les Hébés et les Ganymèdes présentant à bras tendu la petite amphore à bavaroises ou l’obélisque bicolore des glaces panachées; toute l’histoire et toute la mythologie mises au service de la goinfrerie.

Droit devant nous, sur la chaussée, était planté un brave homme d’une quarantaine d’années, au visage fatigué, à la barbe grisonnante, tenant d’une main un petit garçon et portant sur l’autre bras un petit être trop faible pour marcher. Il remplissait l’office de bonne et faisait prendre à ses enfants l’air du soir. Tous en guenilles. Ces trois visages étaient extraordinairement sérieux, et ces six yeux contemplaient fixement le café nouveau avec une admiration égale, mais nuancée diversement par l’âge.

Les yeux du père disaient: «Que c’est beau! que c’est beau! on dirait que tout l’or du pauvre monde est venu se porter sur ces murs.»—Les yeux du petit garçon: «Que c’est beau! que c’est beau! mais c’est une maison où peuvent seuls entrer les gens qui ne sont pas comme nous.»—Quant aux yeux du plus petit, ils étaient trop fascinés pour exprimer autre chose qu’une joie stupide et profonde.

Les chansonniers disent que le plaisir rend l’âme bonne et amollit le coeur. La chanson avait raison ce soir-là, relativement à moi. Non seulement j’étais attendri par cette famille d’yeux, mais je me sentais un peu honteux de nos verres et de nos carafes, plus grands que notre soif. Je tournais mes regards vers les vôtres, cher amour, pour y lire ma pensée; je plongeais dans vos yeux si beaux et si bizarrement doux, dans vos yeux verts, habités par le Caprice et inspirés par la Lune, quand vous me dites: «Ces gens-là me sont insupportables avec leurs yeux ouverts comme des portes cochères! Ne pourriez-vous pas prier le maître du café de les éloigner d’ici?»

Tant il est difficile de s’entendre, mon cher ange, et tant la pensée est incommunicable, même entre gens qui s’aiment!
Charles Baudelaire, Les Yeux des Pauvres


mercoledì 5 marzo 2008

Mourning the silence

I need to be alone tonight
Smother me or suffer
Lay down I'll die tonight
Smother me or suffer
When I'm gone wait here
Discover all of life's surprises
When I'm gone wait here
I'll send my child my last good smile

If you pass through my soul tonight
Gather all his troubles
Tomorrow's long eternal night
Gather for tomorrow
When I'm gone wait here

Discover all of earth's surprises
When I'm gone wait here
I'll send my child my last good smile

Between the cracks and hollows
The earth is good the earth is good

Between the cracks and hollows
The earth is good the earth is good

Lay down lay down lay down for me
Lay down lay down lay down with me
When I'm gone wait here
Discover all of lifes surprises
When I'm gone wait here
I'll send my child my last good bye

hey embrace me someone's gonna suffer
Lay lay lay it on lay lay lay it on me
Someone hey embrace me someone's gonna suffer
Sweet dreams my angel at last good bye
Sweet dreams

"Love Under Will" - Fields Of The Nephilim

lunedì 4 febbraio 2008

Ícaro

«Ausente de mim, quando estiver cansado de ti, sem saber para onde fugir, tu estarás no meu tremer de frio que não existe, no sorriso do meu rosto de alcóol, no meu susto de estar vivo. Uma agulha costura os orgãos uns aos outros para que a dor não se espalhe pelo corpo. A dor, este feixe de nomes vibrando junto ao coração. Um dia estarei longe, muito longe de mim e de ti. Terei perdido o corpo que te sente, irremediavelmente.»
Al Berto


No dia em que tiver que te dizer adeus afogarei a minha alma no sal de todas as lágrimas que fizeste desaparecer. Não mais ficarei nesta terra e voarei em direcção ao sol para lá descansar sem qualquer esperança de ressurreição.
Não quero voltar, não posso acreditar no homem nem no mundo. Os deuses abandonaram-nos há muito e das nossas mãos soltaram-se as cordas com que comandávamos os planetas. Nesta viagem desenfreada que iniciámos contra todos os vendavais, perdemos as rédeas na boca do destino, monstro ávido de pele quente, da respiração sufocada no ouvido, das palavras escondidas noite dentro, das mãos que se fundem no aglomerado de todos os cegos que um dia nos rodearam. Tu mantens-te nessa viagem sem te dares conta que me perdeste pelo caminho, algures, pela lentidão do teu tempo, eu tombei e a minha queda foi o eco do teu nome.
Tu continuas, continuarás hoje e sempre num tempo que é só teu, onde nas tuas mãos nascem melodias infinitamente tristes e morre o amor.
Por isso fujo da noite que tanto venero e vôo em direcção ao sol, acreditando ainda que sou um anjo. A ele entrego as asas dos meus sonhos onde se extinguirão num só sopro como eu extingui a tua chama.

domenica 20 gennaio 2008

Numa sonolência auto-infligida, reviro as palavras. Repito-me uma e outra vez enamorada do meu silêncio tão vasto como o oceano de sonhos em que me afundo.

venerdì 7 dicembre 2007

(n)As palavras dos outros

Pessoas que não se olham
Sentadas ao lado umas das outras
Até que algo acontece.

Levo-te pela mão
Até viveres outra vez.
Amparo o peso do teu corpo
Até sorrires outra vez.
A minha mão no teu ombro
O meu olhar na minha mão no teu ombro.

Até que algo acontece.
Até que algo aconteça outra vez.

Vou parar por aqui,
Continuo dentro da minha cabeça.

Fernando Ribeiro, "Até que algo acontece" (in Diálogo de Vultos)