lunedì 4 febbraio 2008

Ícaro

«Ausente de mim, quando estiver cansado de ti, sem saber para onde fugir, tu estarás no meu tremer de frio que não existe, no sorriso do meu rosto de alcóol, no meu susto de estar vivo. Uma agulha costura os orgãos uns aos outros para que a dor não se espalhe pelo corpo. A dor, este feixe de nomes vibrando junto ao coração. Um dia estarei longe, muito longe de mim e de ti. Terei perdido o corpo que te sente, irremediavelmente.»
Al Berto


No dia em que tiver que te dizer adeus afogarei a minha alma no sal de todas as lágrimas que fizeste desaparecer. Não mais ficarei nesta terra e voarei em direcção ao sol para lá descansar sem qualquer esperança de ressurreição.
Não quero voltar, não posso acreditar no homem nem no mundo. Os deuses abandonaram-nos há muito e das nossas mãos soltaram-se as cordas com que comandávamos os planetas. Nesta viagem desenfreada que iniciámos contra todos os vendavais, perdemos as rédeas na boca do destino, monstro ávido de pele quente, da respiração sufocada no ouvido, das palavras escondidas noite dentro, das mãos que se fundem no aglomerado de todos os cegos que um dia nos rodearam. Tu mantens-te nessa viagem sem te dares conta que me perdeste pelo caminho, algures, pela lentidão do teu tempo, eu tombei e a minha queda foi o eco do teu nome.
Tu continuas, continuarás hoje e sempre num tempo que é só teu, onde nas tuas mãos nascem melodias infinitamente tristes e morre o amor.
Por isso fujo da noite que tanto venero e vôo em direcção ao sol, acreditando ainda que sou um anjo. A ele entrego as asas dos meus sonhos onde se extinguirão num só sopro como eu extingui a tua chama.

domenica 20 gennaio 2008

Numa sonolência auto-infligida, reviro as palavras. Repito-me uma e outra vez enamorada do meu silêncio tão vasto como o oceano de sonhos em que me afundo.

venerdì 7 dicembre 2007

(n)As palavras dos outros

Pessoas que não se olham
Sentadas ao lado umas das outras
Até que algo acontece.

Levo-te pela mão
Até viveres outra vez.
Amparo o peso do teu corpo
Até sorrires outra vez.
A minha mão no teu ombro
O meu olhar na minha mão no teu ombro.

Até que algo acontece.
Até que algo aconteça outra vez.

Vou parar por aqui,
Continuo dentro da minha cabeça.

Fernando Ribeiro, "Até que algo acontece" (in Diálogo de Vultos)




venerdì 23 novembre 2007

Metamorphósis

Ódio: aversão; raiva; rancor profundo; antipatia; repulsão; horror.




P.S. Idem

A ouvir Something I Can Never Have - Nine Inch Nails

giovedì 25 ottobre 2007

"I can resist anything but temptation"

«(...)Eu sou as sete pragas sobre o Nilo e a alma dos Bórgias a penar!...»
José de Almada Negreiros, in a Cena do Ódio



Comovo-me perante a paixão que não pedi. Assusto-me com as rosas que secam de obsessão e enceto, (in)conscientemente, uma caça em que o caçador deita o pescoço numa armadilha sobejamente conhecida. Vacilo entre o querer ser mártir e o querer martirizar e agora sei qual é o momento do qual nenhum ser humano pode escapar, aquele em que se vê frente a frente com o seu verdadeiro eu. Acredito que alguns não aguentem e fujam aos gritos, eu fico! Mais do que tudo sempre quis saber quem sou.
Sei-me entre o bem e o mal, sem conseguir optar. Não consigo erguer um único dedo que mostre o leve indício de que me quero pronunciar, tenho a perfeita consciência que não quero ouvir a minha voz.
Não quero estar frente à tentação, conheço-me. Sei que não resistirei pelo simples prazer de lhe sentir o sabor e essa sensação estará comigo por toda a eternidade.
E a eternidade é mais tempo do que o que eu conseguirei suportar.








domenica 14 ottobre 2007

Escuta. Escuto.
O silêncio envolto nos segundos que antecedem o nascer do dia, quando o céu se corta na troca que fizeste aos ponteiros do relógio.
Escuta. Escuto.
Os murmúrios derretem-se na boca, mergulham em queda livre dentro de ti para te furarem as entranhas, insaciáveis do teu tremer.
Ouve-me. Não consigo.
Leio-te.

lunedì 24 settembre 2007

«Sobre uma bala dirijo-me ao meu deus, alguém criado pela minha própria ilusão. Gostaria de lhe dizer que estou no inferno e que grito todos os dias, talvez porque viva apenas com a esperança de alguém me olhar.
Não durmo, não consigo tirar tempo ao que me resta para conhecer os meus pensamentos, certezas não tenho. Apenas sei que a morte vai surgir de repente e, a sorrir, oferecer-me a paz.
Desejaria rezar para sobreviver, mas sei que não basta fechar os olhos para fugir à própria tragédia. Afinal estou morto de mais para poder morrer, acreditei ter força suficiente para não me asfixiar, apenas pude suspirar quando quis soltar um grito. Morri no instante em que pensei ter começado a viver, porque não era possível continuar vazio por dentro. Desconhecia (talvez) ter nascido para não viver, cortei-me e a felicidade foi a primeira coisa a sair de dentro de mim. (...)
O tempo passa depressa, o dia esvai-se dentro de mim, os primeiros traços de escuridão de há uns meses ocupam cada vez mais espaço. Na mais profunda solidão espero ser livre, desesperado e abandonado choro, não tenho forças para lutar por muito mais tempo.(...)»

Excerto das cartas de Miguel (in As lições do Abismo de Daniel Sampaio)


Caminhar por estradas escusas, sem temer as trevas. A maior escuridão encontra-se dentro de nós. Open your eyes and see.

Never forget!

P.S. «Il faut prendre les leçons d'abîme», Júlio Verne