lunedì 12 marzo 2007

Há algo em ti que me consome...
Não sei se é esta estranha dependência do teu cheiro, se o hábito à tua falta. Vacilo entre desejos e sou tão somente isso, um inconstante destroço da tua passagem por mim, o aperto do coração ao brotar das tuas lágrimas, esta saudade que não existe em mais nenhuma língua e não se escreve na minha.
E se pudesse, arrancaria todas as minhas entranhas para tas ofertar. Uma por uma, cada gota a marcar o chão aquando da entrega. Ajoelhar-me-ia perante ti erguendo bem alto o meu coração numa bandeja prateada, afinal é o único orgão que possui sentimentos.
O meu eu ensanguentado é a maior prenda que te posso dar.
É a única verdadeira.
De mim para ti...

mercoledì 7 marzo 2007

Penitência

Pode ver-se, atrás de cada janela, o semblante de uma só criança. Muito quieta, sentada numa cadeira de madeira já bamboleante da longevidade. As costas demasiado rectas, as palmas, frias, repousantes em cada perna hirta, o olhar estático para além do vidro. Dir-se-ia que está absorta de todo e qualquer ruído, de todo o ar que rodopia em seu redor e até a respiração é ténue, cada inspirar marca o compasso do silêncio.
Já está ali há dois dias e duas noites, este é o terceiro e não será o último. Sentou-se em frente há janela desde que o rio a chamou e ficou a alimentar-se das palavras que chegam a cada minuto enquanto as águas continuam a subir.
E serenamente sobem, como que na tentativa de resgatar o que um dia lhes pertenceu.
(Janeiro, 1977)



Já há muito que caminho paralelamente ao rio, sem nele banhar os pés desfigurados. Sabes, não sei como, mas habituei-me a fazer das chamas trilho, como se a dor fosse a única coisa real, já que aquando do momento em que me chamaste do rio, um silêncio enorme tomou conta de mim. Sentei-me e fiquei tal qual estátua acreditando que me virias buscar. Não pestanejei uma única vez, com receio de que isso pudesse atrasar a tua chegada. Na falta das palavras prostrei-me ao uivar do vento que batia naquela janela, ao teu cheiro que conseguia passar pelas frestas da madeira, as tuas mãos à minha volta acariciando-me a face invisivelmente. Fui ficando, cobrindo-me de pó enquanto não chegavas. No meu olhar as águas continuavam a subir para me resgatar.
Uma noite as águas tingiram-se de vermelho, já não subiam. As águas desciam por mim, copiosamente. Olhei à minha volta, continuava em frente à janela em silêncio. O vento havia parado, o teu odor já não se esgueirava pelas frestas da mdeira envelhecida. Abri as narinas perigosamente, como um animal que procura o cheiro da presa que vinha seguindo, aspirei o ar em golfadas que desceram os meus pulmões vertiginosamente. O teu cheiro desapareceu, mas as águas continuavam a descer por mim ensanguentando-me a pele,inundando tudo ao meu redor. E agora sim, sobem, consigo sentir-lhes o sabor quente, espesso, de mim. Chorei um rio de sangue para que te banhasses nele, mas tu nunca quiseste mergulhar em mim.
Afundo-me só, com as mãos unidas acima da cabeça.

martedì 27 febbraio 2007

É a terra, que sulcas, a cama em que te deitas. Submerges ao olhar passivo, perdes-te na impunidade das frases e viras as costas à alma que se prostra perante a tua dor. Em noites que não findam as palavras desaparecem no código do silêncio.
E é fácil jogar com a vida, sabendo que a morte virá no momento exacto em que decidires respirar.

venerdì 16 febbraio 2007

Doomed

A marca permanecerá até ao final da vida como a conheço. Por todos os tempos a dor não será esquecida, será bradada a cada esquina, em cada uivar do vento, em todas as paredes imprimirei as minhas mãos vazias, carregarei o negro que me cobre até ao olhar e a mágoa será o meu estandarte. Porque no fim dos séculos e quando chegar a luz que engolirá o mundo, eu gritarei mil vezes o teu nome e tu caminharás por vento e por fogo, em todos os milénios a que a tua alma voltar e... quando, o meu nome gatinhar ferozmente pela tua garganta para poder respirar e inflamar-se de vida, será um grito de agonia e tu, eternamente, serás pranto e esquecimento.
Por todos os tempos. Em todos os tempos. Até ao final dos tempos.


sabato 10 febbraio 2007

In silentium

As paredes grotescas desse castelo, em que definhas, gritam de dor.
Eu estou do lado de fora, acariciando a pedra rugosa, fria e intransponível. Ouço o deslizar das tuas lágrimas ao compasso com que dedilhas as cordas de aço que não consigo desentrelaçar.
Continuo do outro lado da porta, a fronte encostada à madeira como se assim me conseguisses sentir porque, daqui, eu vejo a luz disforme que te acompanha.
À noite, frente a frente com a ilusão , ouço-te cada inspirar e fecho os olhos à espera que a tua imagem se preencha de negro, cada contorno retocado, cada lágrima contida no silêncio.
Quando as ameias ruírem pela erosão da futilidade e as bonecas de porcelana perderem a côr, desce as escadas, empurra a pesada porta com a força que te restar, ergue aos céus o teu olhar e vem acordar-me sob o manto negro em que, sonolentamente, te tenho aguardado.




lunedì 5 febbraio 2007

Os braços escudam o corpo-fetal-despido, as pálpebras em fogo descem, os joelhos, nús, magoados do "caminhar", aproximam-se da boca e os lábios secos, da privação, entreabrem-se. O instinto primordial manda lamber as feridas.
A água desce sobre os ombros, enquanto o corpo se enrosca mais e mais como se daí surgisse o vislumbrar de um novo amanhecer. Aqui, entre estas quatros paredes, é o santuário a que os anjos de asas negras não chegam, aqui as preces que se verbalizam não pretendem ser escutadas, brotam dos cortes da descrença e a voz é o silêncio, aqui pode chorar-se sem se ser observado, sem ter que explicar aquilo que não se coloca por palavras, sem ter que mostrar esta dor que consome, que impera, que lateja aos ouvidos numa surdez momentânea.
E a água desce sobre os ombros e o corpo enrosca-se mais e mais, e já não se acredita num novo amanhecer, mas aqui, nesta redoma de vapor quente o corpo aquieta-se e não espera.
Aqui, questiona-se o nascimento, a existência, a divindade, o abandono. Acarinha-se e amaldiçoa-se a mesma lua de uma só noite e isto não se explica, aqui reside um só corpo na presença dos milhares que se foram, a exposição a todos os males, o observar extasiado do veneno que se sabe percorrer as veias, aqui grita-se sem se ser ouvido.
E a água desce sobre os ombros, ininterruptamente, lavando o corpo, somente o corpo... Aqui ouve-se a mesma música vezes sem conta, chamam-se as lágrimas, arranham-se os braços e traçam-se objectivos que nunca vão ser atingidos, mas não há medo, porque aqui, os anjos de asas negras não entram, não se sentam a contemplar a miséria que cobre a pele. Porque, neste silêncio inundado de luz, neste ritual de pureza momentânea, prepara-se uma nova caminhada... ainda que para o fim.

venerdì 2 febbraio 2007

Chama-me...

Ouve-me no vento, nas chamas, nos mares que se erguem para amortalhar, na chuva de pedra, nas águas que invadem a terra e reclamam o que um dia foi seu.
Estou em tudo o que tocas ainda que não queiras.
Sou eu que te percorro as veias, que te queimo o peito, que te atormento as noites numa febre insone, que deslizo sobre a tua pele e te sugo toda e qualquer gota de esperança.
O ar que respiras sou eu que to exalo, cada vez que o teu peito se ergue são as minhas unhas que asfixiam o teu coração.
Se o deixares ficar nelas irá arder? Aguarda e escuta... e sente que, apaixonadamente, sempre te mantive enlaçado em mim, eu engoli toda a miséria que quis corroer-te a alma.
Eu mantenho-me dentro de ti e sentes-me intoxicar-te...
Ouve-me clamar o teu nome nas cordas que percorres suavemente sem saber que é na minha boca que mergulhas os dedos, vê-me naquele momento em que o sol te cega, nos teus pesadelos sou o sonho que tentas alcançar, caminha para mim ainda que saibas que o única abraço que te oferto seja marmóreo.
Vem até mim sem esperança, com os olhos cegos de mágoa, porque na noite é a mim que a tua dor chama porque nenhum outro ser a ouve... esquece o que resta, porque eu comando os mundos que conheces, eu aniquilo os que se cruzam no teu caminho pois a tua imagem é a sublimação e contrasta ironicamente com os teus semelhantes.
Eu sou as palavras da noite que lês quando as lágrimas te permitem.
Eu sussurrei o teu nome à exaustão e com ele erigi impérios, exaltei as águas, cobri a terra de trevas para que pudesses caminhar sem igual. O teu nome está inscrito em todos os tempos, foi a última palavra que Cristo ouviu antes da carne se rasgar uma derradeira vez, o teu nome é entoado por cada mãe que embala o filho, por cada homem que perece abandonado sem força para continuar, por cada faca que perfura, a cada lágrima que surge na última gota de pureza que se esvai. O teu nome sou eu que o escrevo a sangue nos céus, sou eu que o profiro em cada voz que te chama, porque te profetizei um reino intransponível e único.
E a tua dor escolheu-me para alcova porque os meus braços são as asas de mil corvos que invadem os céus e usurpam a noite para te embalar na mais negra das melodias.
Ouve-me, chamo-te como sempre ansiaste.
Porque sempre soubeste... que há um preço a pagar pela beleza.